Tatá, da Mooca para... a Mooca
- Natália Hinoue

- 6 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 14 de abr. de 2020
Conheça o empreendedor que está mudando a cara do bairro
por Emilly Martins, Gabrielle Melo, Luma Cavalcanti e Natália Hinoue
Quem passasse há três anos pelos arredores da Rua Borges de Figueiredo, encontraria uma área com galpões abandonados, asfalto esburacado e pouca iluminação. O lugar perigoso e a falta de atrativos afastavam as pessoas da região. Hoje isso mudou graças ao Distrito Mooca, idealizado por José Américo Crippa Filho, o Tatá, nascido e criado no bairro.

“Sempre vi aquela região abandonada. Nunca alguém quis apostar lá. Há dois anos e meio, começamos a revitalizar a área e reocupar os imóveis”, conta Tatá.
Aos 46 anos, Tatá já teve vários negócios. Todos na Mooca. No começo dos anos 90, abriu o primeiro estabelecimento comercial: uma empresa de corte de ferro e aço.
“Depois abri um lava-rápido e montei uma loja de conveniência nele”, lembra ele, que é apaixonado por carros.
“Desde os 15 anos, já queria ter um carro diferente”.
Ele dedica boa parte do tempo para transformar automóveis em lowriders, carros com suspensão rebaixada. Em 2014, participou do primeiro reality show desse tipo de veículo, o LowRider Brasil, do Discovery Channel.
“A Mooca sempre foi o ponto de referência para a cultura lowrider do Brasil.”
Em 2012, fechou o lava-rápido e a loja de conveniência e abriu uma lanchonete. “Nos Estados Unidos, muitos encontros de lowrides são em hamburguerias. Então, fiz a escolha pra unir as duas culturas.”
O Cadillac Burger investe na sustentabilidade. É a primeira hamburgueria no Brasil a usar a técnica do Grass Fed – gado criado com alimentação adequada e em pasto aberto.
“Valorizo isso na minha vida e quis introduzir no Cadillac.”
O lixo é todo separado. Os talheres, feitos de bagaço de cana, são biodegradáveis. Os guardanapos, recicláveis. A utilização de máquinas de lavar louça diminui gastos de água, luz e diminuem o despejo de produtos químicos.
“Agora montamos uma horta hidropônica no Cadillac.”
A hamburgueria deu tão certo que Tatá procurou imóveis para a segunda unidade nos Jardins. Mas Patrícia Leite, seu braço direito nos negócios, diz que “ele escolheu não sair da Mooca”.
A opção veio após uma viagem a Miami. Ao passear pelo bairro de Wynwood, notou características parecidas com o bairro paulistano. Assim como a Mooca, o local foi área industrial, que ficou por anos com imóveis sem uso. Hoje, Wynwood está revitalizada. Tatá quer o mesmo por aqui.
“O Distrito Mooca nasceu dessa inquietação”, afirmou Patrícia.
O projeto prevê a revitalização de áreas abandonadas com a ocupação de galpões vazios na região da Rua Borges de Figueiredo. A ideia é transformar esses espaços em polo de economia criativa, com gastronomia, lazer, cultura e arte.
Outro dos parceiros de Tatá é Renato Furlani, conhecido como Box, que cuida do estúdio Paint Black Tattoo, na Rua da Mooca. A amizade vai além dos negócios.
“Somos amigos desde a adolescência”, conta.
Felipe Zanutto é mais um aliado nos empreendimentos. O chefe de cozinha abriu o restaurante Hospedaria no Distrito Mooca.
“A Mooca tem história, conteúdo. As coisas são de verdade. Não tem nada fake”, acredita.
A Hospedaria ocupa um galpão de indústria. Possui decoração moderna e música ambiente. O cardápio utiliza o conceito de comida imigrante. É simples, caseiro e lembra as receitas das avós.
“A culinária paulistana tem suas peculiaridades. Não é qualquer um que faz. Se a gente não fizer, pode ser que esses pratos morram.”
O projeto também conta com estrangeiros. É o caso do suíço Ian Haudenschild, responsável pelas relações públicas do Distrito e articulação com a prefeitura.
Há dois anos no projeto, ele acredita que o Distrito Mooca oferece aos moradores uma visão mais ampla, além de comida e balada.
Para Ian, o projeto gera mais amor ao bairro. Não somente de moradores tradicionais, mas de outras pessoas. É o caso dele, apaixonado pelo local.
“A Mooca surpreende pelo jeito de ser”, acredita.
Com dois anos na ativa, a região tem uma nova cara. Pequenas conquistas fazem a diferença, como o recapeamento da rua.
“Com o Distrito, consegui fazer isso. A rua estava ondulada, pelo excesso de caminhões que passam aqui”, conta Tatá.
Outra vitória foi a iluminação de um prédio abandonado na entrada da estação da CPTM Juventus-Mooca, na mesma rua.
“Eu que iluminei. Saiu do meu bolso. Comprei os holofotes, trouxe um eletricista e fiz”, revela.
Há quem não concorde com o projeto. Mylena Fantini, moradora do bairro há 23 anos, defende a abertura de espaços públicos.
“Revitalizar uma área não é só abrir bares e restaurantes.”
Patrícia e Box têm visão diversa. “Aqui tem uma história. Meus avós vieram da Itália com meus pais. Pararam aqui no Museu do Imigrante. Fizeram toda a vida aqui. Sou da terceira geração. E a gente vive para manter a história”, diz Box.
Apesar do reconhecimento obtido, os amigos afirmam que o sucesso não subiu à cabeça de Tatá.
“É igual à gente. Se você conversar, não tem nada de estrela. É uma pessoa comum”, afirma Box.
“Todos admiramos o ser humano Tatá”, concorda Patrícia.



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