Especialista explica porque conteúdos sobre serial killers fazem tanto sucesso entre as pessoas
- Natália Hinoue

- 9 de jul. de 2021
- 3 min de leitura
'Midhunter', 'A Febre de Kuru' e 'Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime': são alguns títulos do streaming que deixam os fãs de crimes reais em euforia, mas são motivo de crítica para psicóloga comportamental
Casos de serial killers e crimes violentos são adaptados para o cinema e para televisão há bastante tempo. Agora com a era do streaming, as produções desse tipo de conteúdo estão cada vez mais em alta.
Recorrente em produções norte-americanas, o tema popularizou diversos criminosos como Charles Manson e fez títulos se tornarem verdadeiros sucessos nos últimos anos, como a série "Mindhunter", de David Fincher. Lançada em 2017 na Netflix, a produção é um dos maiores sucessos da plataforma e traz a história do primeiro caçador de serial killers.
Essa tendência de conteúdo também chegou ao Brasil. Alguns crimes famosos que chocaram o país estão disponíveis no streaming, como o caso dos crimes do Arvoredo e o caso de Elize Matsunaga.
A produção dos crimes do Arvoredo estrela a atriz e cantora Cleo. Através do podcast "A Febre de Kuru", ela conta a história real de serial killer em Porto Alegre no século 19. Os crimes aconteciam na rua do Arvoredo, no centro histórico da capital do Rio Grande do Sul.
O personagem central é o ex-policial José Ramos (interpretado por Silvero Pereira), que, com a ajuda da esposa, a húngara Catarina Paulsen (Cleo), cometeram uma série de crimes na Rua do Arvoredo, atual Rua Coronel Fernandes Machado.
Após matar e roubar os pertences, os dois esquartejavam as vítimas e transportavam os pedaços até o açougue de Claussner, onde as partes do corpo eram desossadas, trituradas e misturadas com a carne bovina para ser vendida ao público.
Os episódios da série em áudio vão ao ar toda sexta-feira nas plataformas digitais.
Na última quinta-feira (8), a série documental “Elize Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime” foi lançada na Netflix.
A produção apresenta detalhes sobre o caso de Elize, que, em 2012, matou e esquartejou o marido, Marcos Matsunaga, empresário dono da empresa Yoki. Foi a primeira vez que ela compartilhou seu ponto de vista sobre os fatos.
A produção aborda desde a infância de Elize na cidade de Chopinzinho, no interior do Paraná, até o seu relacionamento com o empresário. Também foram abordados os detalhes que sucederam o crime, incluindo a confissão e o julgamento em 2016.
Além de Elize, familiares e colegas dela e da vítima dão seus depoimentos. Especialistas que acompanharam as investigações, jornalistas, advogados de defesa e acusação e peritos criminais também devem aparecer.
A recorrente produção de conteúdos sobre serial killers se deve, é claro, pelo sucesso que fazem entre os fãs de crimes reais. Mas a que se deve essa “afeição” por um assunto tão pesado?
O site da TV Cultura conversou com uma psicóloga clínica e comportamental, que explicou porque as pessoas gostam dessas produções sobre serial killers.
“Costumo dizer que é do mesmo jeito que gostam de alimentos com gostos bem acentuados. Muito ketchup, mostarda, sal, pimenta, coca cola, álcool, drogas, som alto, como estes carros que passam nas ruas que machucam a audição. Se estão felizes, soltam fogos, não se importando com os animais e seres humanos mais sensíveis. Estes são os consumidores desse tipo de entretenimento. A de convir que é a grande maioria”, declarou Osmarina Vyel.
Segundo a especialista, isso acontece pelo fato dos sentidos: paladar, olfato, tato, visão, audição, estarem atrofiados ou pouco estimulados adequadamente. Então a pessoa precisa de percepções sensoriais mais fortes para poder se sentir envolvida com o contexto.
“Tudo tem vibração e se notar, verá que o som dos filmes de suspense tem uma vibração sonora que vai atuar no cérebro da pessoa e liberar hormônios do prazer, pois todos nós temos a duplicidade entre a luz e a sombra. Isso faz parte do processo evolutivo da raça humana”, explicou.
“Neste caso, os filmes e séries são meios para liberar este desejo contido no inconsciente e atua diretamente no sistema límbico da pessoa envolvida. Esta parte do cérebro não reconhece o que é certo ou errado, não tem a capacidade de raciocinar, simplesmente segue os impulsos”, acrescentou a psicóloga.
Osmarina alerta sobre o consumo de conteúdos sobre crimes reais.
“O perigo é que, quando estimulado em excesso, a pessoa passa a agir conforme os estímulos em seu dia a dia e sabemos que estes filmes incitam os adeptos a se comportarem como o que acontece na fixação ilusória. Isso acontece justamente pelas músicas que vibram na densidade das partes do cérebro mais instintivas”.
A psicóloga é crítica das produções sobre serial killers. Segundo ela, quanto mais este tipo de filme fizer sucesso, mais criminalidade surgirá na vida real.
“Deveria haver uma certa censura, sabendo do quanto este mecanismo influencia negativamente a sociedade”, sugeriu.



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